Revolução colorida
October 22, 2007CELSO DE CAMPOS JR.
No mercado automotivo brasileiro, a vida não é um arco-íris -ao menos no que diz respeito a quem está em busca de um carro que fuja de prata, preto, cinza e branco, cores dominantes no grisalho trânsito do país.
Com 72% dos carros na América do Sul pintados nesses tons, segundo a DuPont, a maior fornecedora de tintas para montadoras, é cada vez mais raro achar as ovelhas coloridas.
A consultora de RH Erika Knoblauch que o diga. Após perambular sem sucesso por diversas concessionárias à procura de um carro vermelho, encontrou na Honda a possibilidade de encomendar um Fit. Seria entregue em dois meses -mas ela teve de esperar cinco.
“Chegaram a me sugerir até comprar um branco e repintá-lo, o que não faz o menor sentido”, diz Knoblauch, fã dos rubros desde 1978, quando teve um Ford Corcel 2 vermelho.
Outra vítima da ditadura das cores foi o metroviário Gilberto Pinheiro de Araújo. Ao adquirir uma Fiat Palio Weekend vermelha, recebeu a promessa de que a perua estaria em sua garagem em 30 dias úteis.
“Vendi meu carro e prometi ao comprador entregá-lo em um mês, pois já estaria com o novo. Entreguei meu carro, mas nada de o zero chegar. Foram 70 dias úteis de espera.”
Knoblauch não se conforma com o encolhimento do mercado dos coloridos. “Na Audi, por exemplo, há fila de espera pelos carros vermelhos. Se há a demanda, por que não há oferta?”
A filial brasileira confirma que pode haver lista de espera aqui no Brasil por cores como vermelho e branco, por terem uma procura mais baixa.
Medo da revenda
Para a Honda, essa procura não é tão grande assim. “A revenda solicita o que quer receber, e acreditamos que seu pedido vise atender à demanda”, diz Marcos Martins, gerente de venda da montadora.
Procurada pela Folha, a Fiat não se pronunciou.
Ainda que sejam atraídos por cores exóticas, muitos motoristas fogem das cores mais ousadas pelo medo da depreciação na revenda. “É realmente uma exigência do mercado. Preto e prata costumam alcançar um melhor preço, além de venderem mais rapidamente”, confirma Andréa Lazaro, da AutoMottivo Multimarcas.
A psicologia também tem sua explicação. “Muita gente opta por preto ou prata nos carros porque busca status e sofisticação”, analisa o psicólogo Paulo Félix, da Associação Pró-Cor, que reúne profissionais de diversas áreas. “Mas a escolha por essas cores também revela insegurança, pois impede que os motoristas expressem seus verdadeiros sentimentos.”
Com tudo isso, a previsão para 2008 ainda é de nebulosidade na avaliação do designer de cores Marcos Quindici, da Rainbow Brasil. “A tendência é de inclusão de subtons coloridos no prata. Cores vivas ainda continuam identificadas com os modelos esportivos.”
Com a ampla propagação da onda grisalha no trânsito, até os modelos esportivos estão sob ameaça. Ainda que as montadoras sigam apostando nas cores alternativas, as vendas levam os esportivos para o lado negro -e prata- da força.
Quando o Civic Si chegou ao mercado, em março, a Honda apostou na cor vermelha. Nos primeiros dias de produção, 60% dos carros fabricados eram rubros, e 40%, pretos.
Mas, para atender a pedidos do mercado, a montadora incluiu o prata no “mix” de cores do Civic Si. Hoje, a cor vermelha restringe-se a 5%.
“O motorista quer o benefício do esportivo, mas com discrição”, diz Marcos Martins, gerente de venda da Honda.
Para o designer de cores da Rainbow Brasil Marcos Quindici, também nos esportivos a questão passa pelo bolso. “No Brasil, o carro é um investimento, e não objeto de consumo. É também um patrimônio, precisa se manter valorizado.”
A escolha, no entanto, deixa de lado a segurança. Quanto mais escuro o carro, mais está propenso a se envolver em acidentes, diz o Centro de Estudos de Acidentes da Universidade Monash (Austrália).
A análise dos dados de 1987 a 2004 em dois Estados australianos revelou que os carros pretos têm 12% mais chance de se envolver num acidente que os brancos, os mais seguros. Em seguida, aparecem os cinzas (11%), e os pratas, (10%). Vermelhos e azuis têm 7%.
O problema é o baixo contraste da cor do veículo com a do ambiente. À noite, a cor influi menos, pois os faróis praticamente a neutralizam.
Fonte: Folha de S.Paulo.
Finalmente alguém mais notou as cores do transito do brasil. Assunto que eu tinha abordado nesse post: Trânsito monocromático
