Sinal vermelho no trânsito
Marcelo Gatti Reis Lobo
O sufocante e caótico trânsito da cidade de São Paulo parece nos jogar em uma rua sem saída. Até porque as atuais alternativas apresentadas pelas autoridades competentes não surtiram resultados positivos. E as novas idéias mirabolantes podem tornar o problema ainda maior. Aumento de dias do rodízio de veículos, pedágio urbano e instalação de chip nos veículos são os mais recentes projetos. Sinal vermelho para eles e sinal verde para todas as iniciativas que levem à melhoria do transporte público.
O aumento do rodízio será mesmo a melhor saída para melhorar o trânsito caótico da cidade de São Paulo? Pedágio urbano e chips obrigatórios, impostos de cima para baixo ao arrepio da legislação, não seriam apenas novas formas de arrecadação? O chip não viola a privacidade do motorista?
De acordo com números do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) de São Paulo, atualmente circulam cerca de 4,4 milhões de automóveis em São Paulo e mais 1,4 milhão de ônibus, caminhões e motos. Conseguir chegar a um compromisso na hora marcada é um ato heróico. Circular pelas ruas e avenidas em horário de pico é uma tarefa para exercitar a paciência. Além disso, somos vítimas de uma política arrecadatória e reféns de administrações incompetentes que não conseguem encontrar soluções inteligentes, e legítimas, para afastar o caos das nossas ruas e avenidas.
O rodízio de veículo é uma realidade em São Paulo desde 1997. Porém, pouco impacto teve na redução dos congestionamentos. Com as facilidades de financiamento oferecidas pelas grandes montadoras, milhares de famílias paulistanas possuem o chamado “carro do rodízio”. Hoje, temos 1,2 carros para cada motorista na cidade.
Para desespero dos paulistanos e dos que precisam utilizar nossas marginais para passar de uma rodovia para outra, os números indicam que os congestionamentos aumentaram. A média da manhã subiu de 62 quilômetros para 86 quilômetros em três anos. Ou seja, o rodízio pouca influência teve para a melhora do trânsito, mas virou um poderoso instrumento de arrecadação da Prefeitura. Dos quase dois milhões de multas registradas de janeiro a junho, 61% foram por desrespeito ao rodízio ou excesso de velocidade – violações fiscalizadas tanto pelos “marronzinhos” quanto por equipamentos eletrônicos.
O monitoramento do trajeto percorrido por um motorista, por meio do sistema de identificação de veículos com chip, que passará a vigorar a partir de maio de 2008 na capital paulista, fere o direito à privacidade e pode ser considerado inconstitucional. Em tese, isso gera um controle das atividades das pessoas. Há uma supressão da liberdade, um dos direitos constitucionais, e poderá ser questionado na Justiça. Além disso, é claramente uma medida punitiva e não educativa. É uma maneira bruta de alterar o comportamento do motorista. Engana-se aquele que achar que diminuirão os furtos e roubos de carros ou que após o crime seu carro vai ser “monitorado” até que a polícia o encontre… Mas não duvidem se, no futuro, estas informações venham a ser vendidas para seguradoras ou empresas de localização.
A situação se agrava com a superlotação do sistema de transporte coletivo, as más condições das calçadas e o péssimo tratamento que tanto pedestres quanto ciclistas enfrentam quando encaram as ruas. Estranho é que, ao se discutir os problemas ligados ao trânsito, sejam raros os projetos e iniciativas voltados à melhoria do transporte público, ponto fundamental para o desenvolvimento da metrópole e uma saída para a redução dos carros em circulação. Parece que fica mais fácil pensar em como dificultar a vida do cidadão que anda de carro pela cidade do que encontrar soluções eficazes para o aumento e a melhora na qualidade do transporte público.
O cidadão paulistano que depende do transporte público nos dias de hoje é um verdadeiro mártir. São horas esperando ônibus em pontos lotados, espremido no metrô já saturado pelo número de passageiros ou nas lotações clandestinas. E tudo isso com pouca segurança. Ou você se sente seguro andando em ônibus que soltam rodas pela cidade?
Já está mais do que na hora de a cidade de São Paulo ter uma política de transporte público eficaz, com projetos elaborados para atender às necessidades da população, cansada de passar horas no trajeto entre a residência e o trabalho e sem nenhuma comodidade. Chega de projetos que privam o cidadão de suas liberdades com políticas de arrecadação de multas. São Paulo precisa de um sinal verde para trafegar melhor.
Texto um tanto quanto perfeito. Enquanto lia já pensava no que eu sempre disse: Cadê os metrôs?
Desconheço uma pessoa que não deixaria o seu carro em casa se tivesse um metro decente por perto, num digo ônibus pois eu particularmente não gosto, mas pode servir para a pergunta também. É mais que obvio que São Paulo só precisa de um transporte publico decente.
Me pergunto: para onde foi toda a grana arrecadada com as multas do rodízio? Realmente o Kassab trocou o asfalto de São paulo inteira; Estão fazendo uma nova linha de metrô, mas não é o suficiente.
Mas nunca podemos esquecer que cada um pode fazer a sua parte, se puder negocie seu horário de trabalho, pesquise novas rotas, se puder pegue carona. Imagino que ninguém gosta de ficar parado, mas ao imaginar um congestionamento minha impressão não é essa.